quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Macro + micro = ?

Tenho metade* da vida concentrada na minha freguesia. Em três ruas da minha freguesia, para ser mais exacto. Emprego, casa e aulas de dança.
A outra metade da vida está a 50kms de mim. O Universo rege-se por leis de compensação? É matemático? E pode isto ser considerado equilíbrio?

* - no que a tempo diz respeito


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

De saída

Havia putos.
Putos aos berros, a chutar uma bola de uns para os outros, a ocupar todo o caminho da entrada. Era Outubro de 2009, mas podia ser de 1990 ou 1995.
A diferença é que, por esses dias, havia ali putos constantemente, às dezenas - uma, em dias normais; duas, em dias bons. E quando não estavam ali, era sabido: estavam todos nas traseiras, a fazer a vida num inferno a quem tinha o azar de ter a casa voltada a Norte. Os portões das garagens tinham formas curiosas, a maior parte delas por serem alvos preferenciais das habilidades de finalização - ou seja, balizas - e queixavam-se bem alto sempre que o guarda-redes respectivo não cumpria a função que lhe estava destinada.
Obviamente que os donos das respectivas balizas... perdão, garagens, não estavam pelos ajustes com este campeonato de todos contra todos e, volta e meia, lá chovia sermão e missa cantada. Jogo interrompido, lá se mudava de estratégia - futebolada normal, com balizas inofensivas - e os ânimos serenavam. Até ao dia seguinte.
Na frente do prédio, a conversa era outra. O espaço era mais apertado e a imaginação era posta a funcionar. Duas balizas estreitas, jogo mais técnico, campeonatos de 1x1, em que era obrigatório rematar colocado e em força para se chegar a algum lado. Dois a jogar, os outros todos sentados no degrau diante das portas, ora a desconcentrar, ora a esperar apenas pela sua vez. Uhm, normalmente a desconcentrar, sim.
Desta vez não se jogava de baliza em baliza.
Os putos estavam só num amontoado, a passar a bola de forma desorganizada mas a fazer o barulho típico de grandes jogadas em estádios cheios. Foi bom rever a cena, ainda que de mais alto, ainda que só por uns segundos, de passagem, como que a lembrar que a vida já não é a mesma. Imaginei porque não estaria ali ninguém a reclamar do barulho, porque não estaria o vizinho do primeiro andar, de dicionário em riste, a discutir a superioridade da construção frásica "jogar a bola" sobre a sua congénere popular "jogar à bola". Porque não estaria o do rés-do-chão a perguntar quem amolgou a porta do carro (se está a ler, desculpe...).
Talvez porque, como para mim, acabava por ser reconfortante também para todos eles aquela algazarra ali criada, como se houvesse vida nova num prédio que já cresceu há uns anos e que começa agora a sair de casa para ir fazer a sua vida noutro lado qualquer. Talvez porque, com mais desencanto mas mais realismo, todos soubessem que aquele era apenas um retrato passageiro de algo que já não volta e que, em vez discutir com esse retrato, era melhor ficar apenas a admirá-lo, como se faz com todos os outros, e deixar o tempo correr ao sabor da memória.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

França, take 2

Ora, portanto, a França era uma espécie de espinha atravessada no meu mapa de passeatas pela Europa. Não é que tal mapa esteja particularmente recheado de cruzes a marcar os sítios por onde passei - não são assim tantos, é um facto - mas a França era ainda uma vasta área cinzenta a separar a Ibéria do resto do continente.
Dia 31 começo pela capital, como já tinha dito antes, e em finais de Novembro vou dedicar-me ao centro, mais concretamente Lyon. E, dessa forma, já não me fica a faltar pôr os pezinhos em terras da liberté, da fraternité e das baguettes.